Oceano Kalunga: renomear o Atlântico nas águas do sul-sul

Palavras-chave: Kalunga; Oceano Kalunga; Geopoesia; Diásporas, Eixo Sul-Sul

Resumo

Este texto propõe uma reinterpretação do Atlântico a partir da palavra Kalunga. Mais especificamente, movimenta o conceito de Oceano Kalunga para pensar a geopoesia nas cosmologias, experiências e vivências Sul-Sul que se espraiam entre Angola e Brasil. Contra a visão eurocentrada de “Atlântico civilizatório”, evidenciam-se violências coloniais: etnocídios nas diásporas dentro da grande diáspora que estrutura um mundo afro-brasileiro. Nesse contexto, a noção de kalunga, chave metodológica, ontológica e raizamática significa oceano, mar, morte, travessia. Nomeia, também, a maior comunidade remanescente de quilombo do Brasil – os Kalunga. Situada no Cerrado (longe das águas coloniais), situa-se na divisa entre Goiás e Tocantins (corredor da geopoesia). Em diálogos com Paxe e Machado, Gilroy e Mbembe, Leda Martins e Carlos Brandão, vocalidade e territorialidade constituem rexistência e elaboração simbólica. Na geopoesia, a raizama renomeia. Esse ato permite que terra, quilombo, luta e corpo coletivo possam falar. Renomear o mar, que tem gosto de sal e de sangue, invoca ancestralidade, liberdade e criatividade nos saberes afrodiaspóricos de Brasis liminares.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Augusto Rodrigues da Silva Junior, Universidade de Brasília, Brasil

Augusto Rodrigues da Silva Junior é Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPQ – nível C. Professor Associado III de Literatura Brasileira na Universidade de Brasília. Professor e Pesquisador permanente no Programa de Pós-graduação em Literatura (POSLIT/UnB) e no Programa de Pós-graduação em Letras e Artes (PPGLA/UEA). Fez letras e mestrado na UFG. Doutorado em Literatura Comparada na UFF e pós-doutoramento na UMinho (Braga/Portugal) e na Universidade de São Paulo. Atualmente faz Estágio Pós-Doutoral no ISCED-Sumbe (Angola). Faz parte do Projeto “Relações Brasil e Angola no espaço escolar: desafios e estratégias para a educação literária em seus contextos de produção e mediação”; apresentado à Chamada Pública MCTI/CNPq n.º 16/24.

Referências

Alves, E. C. (2020). Geopoesia Kalunga: identidade territoriais da Comunidade Quilombola do Mimoso – Tocantins (Tese de Doutorado). Universidade Federal de Goiás.

Alves, E. C., Almeida, M. G., & Silva Junior, A. R. (2020). Geopoesia e território: a constituição das identidades Kalunga em Mimoso – TO. GeoNordeste, 1, 93–110. https://doi.org/10.33360/RGN.2318-2695.2020.i1.p.93-110

Alves, E. C., Silva Junior, A. R., & Almeida, M. G. (2020). Identidades territoriais Kalunga da/na Comunidade Quilombola do Mimoso, em Tocantins. Pracs, 13(2), 121–130.

Andrade, G., & Cosme, L. (1963). Mákua: Antologia poética (Vol. 3). Publicações Imbondeiro.

Assis, J. M. (1948). Dicionário Kimbundu-Português. Argente, Santos & Cia Ltda.

Assis, M. (1904). Esaú e Jacob. H. Garnier.

Assis, M. (1992). Obra completa. Nova Aguilar.

Baiocchi, M. N. (1999). Kalunga: Povo da terra. Ministério da Justiça.

Bakhtin, M. (2002). A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais. Hucitec.

Bandeira, M. (1993). Poesia completa e prosa. Nova Aguilar.

Beltrão, L. C. (2026). Corredor da geopoesia entre Goiás e Tocantins: Território e desigualdade nas vozes de Tião Pinheiro e José Godoy Garcia (Tese de Doutorado). UnB.

Benjamin, W. (1994). O narrador. In W. Benjamin, Magia e técnica, arte e política (pp. 197-198). Brasiliense.

Bessa Victor, G. (1966). Cubata abandonada. Editora Pax.

Bosi, A. (1996). Dialética da colonização. Companhia das Letras.

Brandão, C. R. (1977). Peões, pretos e congos: Trabalho e identidade étnica em Goiás. UnB.

Brandão, C. R. (1980). Os deuses do povo: Um estudo sobre a religião popular. Brasiliense.

Brandão, C. R. (1985). A festa do Santo de Preto. Fundação Nacional de Arte.

Brandão, C. R. (2004). De tão longe eu venho vindo: Símbolos, gestos e rituais do catolicismo popular em Goiás. UFG.

Brandão, C. R. (2009). A clara cor da noite escura. UCG.

Borba Filho, H. (1976). Os ambulantes de Deus. Civilização Brasileira.

Burke, P. (1989). Cultura popular na Idade Moderna. Companhia das Letras.

Djavan. (1989). Oceano. In Djavan [Faixa sonora]. Columbia Records.

Guimarães, A. L. O. (2022). “Kalunga guarda muito de nossa memória”: Semânticas transculturais de Kalunga em contexto diaspórico (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal da Bahia.

Holanda, S. B. (1995). Raízes do Brasil. Companhia das Letras.

Kandjimbo, L. (2019). Alumbu: o cânone endógeno no campo literário angolano. In Para uma hermenêutica cultural. Mayama.

Kissaba, M. (Eugénio). (2011). O caixão [Peça teatral; texto digitado]. Sumbe, Angola. Não publicado.

Kissaba, M. (Eugénio). (2017). A mulher do falecido [Peça teatral; texto digitado]. Sumbe, Angola. Não publicado.

Kissaba, M. (Eugénio). (2021). O pedido no cemitério [Peça teatral; texto digitado]. Sumbe, Angola. Não publicado.

Kissaba, M. (Eugénio). (2026). Kapululo [Peça teatral; texto digitado]. Sumbe, Angola. Não publicado.

Krenak, A. (2022). Futuro ancestral. Companhia das Letras.

Marques, I. G., & Ferreira, C. (Orgs.). (2021). Entre a lua, o caos e o silêncio: A flor – antologia de poesia angolana. Guerra & Paz.

Martins, L. M. (1997). Afrografias da memória: O reinado do Rosário no Jatobá. Perspectiva.

Medeiros, A. C. M., & Silva Junior, A. R. (2023). Global e desglobal na geopoesia quilombola kalunga: crítica polifônica em diálogo com a geocrítica. Revista Brasileira de Literatura Comparada, 25(49), 70-86. https://doi.org/10.1590/2596-304x20232549acmmarsj

Melo, A. C. (2026). A escuta geopoética no Cerrado Kalunga: A rexistência afrodiaspórica entre vãos e cantigas (Dissertação de Mestrado). Universidade de Brasília.

Racionais MC’s. (2002). Negro drama. In Nada como um dia após o outro dia [Faixa sonora]. Cosa Nostra.

Rodrigues, M. H. S. (2023). Mulheres que são Tuia: Lutas e resistência (Dissertação de Mestrado). Universidade de Brasília.

Rolon, R. B. B., & Silva Junior, A. R. (2022). Geopoesia feminina em Angola e no Brasil amazonense: trânsitos e engajamentos de Paula Tavares e Amélia Dalomba, Priscila Lira e Marta Cortezão. In R. B. B. Rolon, M. Almeida & E. M. Magalhães (Orgs.), Literaturas em diálogo: Africanidades, afrodescendências, trânsitos (pp. 111-131). Nepan Editora.

Santos, A. B. (Nêgo Bispo). (2015). Colonização, quilombos: Modos de significações. INCTI.

Schechner, R. (2012). A rua é o palco. In Z. Ligiéro (Org.), Performance e antropologia de Richard Schechner (pp. 155-198). Mauad X.

Segato, R. L. (2005). Santos e daimones: O politeísmo afro-brasileiro e a tradição arquetipal. UnB.

Silva Junior, A. R. (2008a). Festejo quilombola: O kalunga, o divino, o verso. In Anais do ENECULT – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, 4, Salvador. (pp. xx-xx). ENECULT.

Silva Junior, A. R. (2008b). Vozes e versos na festa quilombola dos Kalunga. Revista África e Africanidades, 1(1).

Silva Junior, A. R. (2010). Literatura e cultura de negros do Brasil central: Versos, cantos e performance Kalunga. Cerrados, 19(30), 123-141.

Silva Junior, A. R., & Barros, E. A. (2020). Raizamas do Brasil: benções amazônicas no Oeste do Pará. Martius-Staden-Jahrbuch (pp. 176-188). Oikos Editora.

Turner, V. (2008). Dramas, campos e metáforas: Ação simbólica na sociedade humana. EdUFF.

Zumthor, P. (2010). Introdução à poesia oral. UFMG.

Publicado
2026-08-27
Como Citar
Rodrigues da Silva Junior, A. (2026). Oceano Kalunga: renomear o Atlântico nas águas do sul-sul. Especiaria: Cadernos De Ciências Humanas, 23(1). https://doi.org/10.36113/especiaria.v23i1.4928
Seção
Dossiê Atlântico e Diáspora Africana: um oceano para a história e o pensamento